
Cariologia é a ciência dentro da Odontologia que estuda os processos da cárie.
Cárie
A cárie dentária é uma doença complexa e multifatorial. De origem bacteriana, sua evolução é influenciada pelos hábitos dietéticos e de higiene bucal, pela micro flora considerando-se também o tempo de atuação destes fatores e época de erupção do dente. Sendo um processo dinâmico que inicia com a desmineralização do esmalte, evoluindo para cavitação e perda dental. Este processo pode ser interrompido em qualquer uma das etapas em que for detectado.
Desenvolve-se de modo diferente de acordo com a sua localização no dente (superfície lisa; fissura e raiz)
A cárie da superfície lisa é a cárie de desenvolvimento mais lento e representa o tipo mais evitável e reversível. A lesão inicia como uma mancha branca onde existem bactérias que dissolvem o cálcio do esmalte.
A cárie de depressão e de fissura localiza-se nos estreitos sulcos da superfície de mastigação dos molares, ao lado das bochechas e desenvolve-se rapidamente.
A cárie da raiz começa no cemento, quando este se torna exposta devido à retração gengival.
A cárie no esmalte, a camada externa e dura do dente, progride lentamente. Após penetrar na dentina, uma estrutura mais macia e menos resistente, a cárie dissemina-se mais rapidamente, avançando em direção à polpa, a parte mais interna do dente, que contém os nervos e os vasos sanguíneos. Embora uma cárie possa levar dois ou três anos para penetrar no esmalte, ela pode avançar da dentina até a polpa (uma distância muito maior) em pouco tempo, mesmo em um ano.
Ao contrário da maioria das doenças de origem microbiana, em que a presença do microrganismo é a causa da doença. A cárie resulta da interação complexa entre bactérias, superfície dentária e dieta.
Estudos posteriores mostraram que além dos fatores: bactéria, superfície dentária e dieta, a associação do fator tempo é determinante para o aparecimento da lesão cariosa.
Nem a dieta e nem os microrganismos, atuando como fatores individuais podem provocar o aparecimento da cárie, sendo necessária a presença desses fatores, simultaneamente, na superfície dentária.
Atualmente a cárie é considerada um desequilíbrio no processo de desmineralização e remineralizarão (DES – RE) dos tecidos duros do dente, fenômeno que ocorre, constantemente na cavidade bucal. A velocidade na progressão das perdas de mineral decorrentes desse desequilíbrio é que determinará ou não o surgimento da cárie.
As bactérias aderem ao dente formando uma camada incolor, chamada de placa bacteriana (biofilme). Quando comemos, as bactérias se “alimentam” dos restos de alimento que ficam dissolvidos na boca (principalmente açúcares). Um dos produtos finais de seu metabolismo são os ácidos, que em contato com os dentes, causam uma desmineralização formando então as cavidades na estrutura dental.
Microbiota da cárie
Embora a boca contenha uma grande quantidade de bactérias, apenas alguns tipos causam a cárie. Os principais causadores são os Streptococcus mutans (inicio do desenvolvimento da lesão) e os Lactobacillus.
Os Actynomices são os responsáveis pelo desenvolvimento das lesões radiculares
Fatores determinantes e modificadores da cárie
A cárie não se desenvolve na ausência de microrganismos. E mesmo diante de microrganismos cariogênicos, a cárie não se desenvolve na ausência de fatores determinantes e modificadores.
Fatores determinantes
Os fatores determinantes (biológico) são os mesmos nas várias populações.
- Dieta
- Saliva
- Acesso ao Flúor
Dieta
Inúmeros trabalhos realizados na área odontológica comprovaram que a dieta exerce um papel fundamental como causadora de cárie, aliada a presença de bactérias na boca e pela má higienização.
Muitos pesquisadores observaram uma associação significativa entre a cárie e a frequência de ingestão de açúcar entre refeições: doces e bolos, balas pegajosas, frutas cristalizadas, goma de mascar, pastilhas e refrigerantes.
O potencial cariogênico dos alimentos está relacionado com a presença de diversos açúcares (glicose, frutose, sacarose, maltose e lactose, amido). Todos eles podem ser fermentados pela placa bacteriana, dando origem a ácidos. Entretanto, a sacarose (componente do açúcar refinado) é o que está mais presente na dieta habitual e é o preferido da bactéria Streptococcus mutans.
Saliva
O pH da saliva é de 6.8 a 7.2. Entretanto, este pH sofre variações no decorrer do dia em função do tipo de dieta alimentar, hábitos de higiene bucal, fluxo salivar, etc.
Quando o pH oscila, a saliva atua como um sistema tampão que promove o retorno do pH aos padrões ideais protegendo a boca de duas maneiras:
- preserva o equilíbrio da microbiota bucal evitando a colonização de bactérias potencialmente nocivas.
- neutraliza os ácidos produzidos pelos microrganismos que se fixam na placa bacteriana.
O termo pH é usado para descrever o grau de acidez ou alcalinidade (basicidade) de uma solução. A acidez ou a alcalinidade de uma solução é expressa em uma escala de pH que vai de 0 a 14. Essa escala de pH é baseada no número de hidrogênios livres (H+) em uma solução. Uma solução com valor 0 na escala de pH tem muitos H+ e poucos OH-. Uma solução com pH 14, em contraste, tem muitos OH- e poucos H+.
Flúor
Ajuda a evitar a cárie dentária, dificultando a destruição do esmalte e acelerando o processo de remineralização.
Fatores modificadores
Os fatores modificadores são características das diferentes culturas.
- Fatores culturais
- Fatores socioeconômicos
- Fatores relacionados à saúde geral
- Fatores epidemiológicos
- Fatores clínicos
Os fatores modificadores estão relacionados aos hábitos alimentares culturais, estilo de vida, doenças, acesso a tratamento e informações de promoção de saúde, etc.
Biofilme
Atualmente a placa bacteriana, passou a ser chamada de biofilme. É uma película pegajosa e incolor, constituída de bactérias e açúcares que adere a superfície dos dentes, se formam quando as bactérias começam a se colonizar e crescem na superfície dental.
A presença do biofilme na cavidade oral é o principal fator etiológico da cárie dental e a progressão de uma lesão cariosa esta relacionada a atividade do biofilme. Com isso as lesões podem ser caracterizadas como ativa ou controladas.
Terminologia das lesões de cárie
- Lesão cariosa ativa – lesão considerada progressiva.
- Lesão controlada ou inativa – lesão que pode ter sido formada há anos e interrompeu sua progressão (lesão remineralizada ou crônica)
- Lesão de mancha branca – primeiro sinal visível de uma lesão em esmalte. Característica clínica: mancha branca muito opaca.
- Cárie primária – lesões em superfícies não restauradas.
- Cárie secundária ou recorrente – lesões em regiões adjacentes a restaurações.
- Cárie residual – tecido desmineralizado e infectado que foi deixado no local da lesão cariosa, previamente a inserção de um material restaurador.
- Cárie radicular – lesão cariosa que ocorre na raiz.
- Cárie oculta – lesões em dentina que não são detectadas em exame clínico visual. Porém são extensas e desmineralizadas, sendo detectadas por exame radiográfico:
- Cárie rampante – múltiplas lesões cariosas ativas (cárie de mamadeira, cárie por radiação ou por uso de drogas):
Cárie de mamadeira
É também conhecida por uma variedade de sinônimos – cárie por amamentação, síndrome da mamadeira noturna, síndrome da cárie de mamadeira, cárie em bebês – é um tipo de destruição dental associada ao íntimo contato de líquidos açucarados fermentáveis da mamadeira com os elementos dentais durante o dia ou à noite (durante o sono) ou, ainda, a uma alimentação prolongada no seio materno além da idade considerada normal para o desmame (por volta do primeiro ano de vida).
Sintomas da cárie
Geralmente, uma cárie de esmalte é indolor. A dor ocorre quando ela atinge a dentina. O indivíduo pode sentir dor somente ao ingerir alguma bebida gelada ou ao comer um doce. Isto indica que a polpa ainda está saudável. Se a cárie for tratada nesse estágio, o paciente não mais sentirá dor ou dificuldade para mastigar. Uma cárie que se aproxima ou atinge a polpa causa um dano irreversível, necessitando de tratamento endodôntico. O dente pode doer mesmo na ausência de estimulação (dor de dente espontânea).
Quando a polpa é invadida por bactérias e morre, a dor pode cessar temporariamente. Contudo, em um curto período (horas a dias).
Se uma cárie for tratada antes de provocar dor, a possibilidade de uma lesão pulpar diminui e uma parte maior da estrutura do dente será salva. Para detectar cáries precocemente, o dentista deve questionar o indivíduo sobre a ocorrência de dor, deve examinar os dentes, fazer uma sondagem dos dentes com instrumentos odontológicos para testar áreas de sensibilidade e de dor e pode realizar radiografias.
Todas as pessoas devem se submeter a um exame odontológico a cada seis meses, não sendo obrigatória a realização de radiografias. Dependendo da avaliação do dentista sobre a dentição do indivíduo, podem ser realizadas radiografias a cada 12 a 36 meses. Existem cinco estratégias gerais que são fundamentais na prevenção de cáries: uma boa higiene oral, uma alimentação adequada, o uso do flúor, aplicação de selantes e a terapia antibacteriana.
Autora: Flávia Rabello